Ajustamento criativo: quando a rigidez nos afasta de nós mesmos
- anaclaudiapsicolog5
- 15 de mai.
- 5 min de leitura
"A vida da gente deve ser levada do jeito do rio. Deixar que corra como deve correr. Sem apressar e sem represar."
— Barry Stevens

Você já se pegou repetindo o mesmo padrão, mesmo sabendo que ele não funciona mais? Aquela resposta automática em discussões, aquela dificuldade de pedir ajuda, a tendência de assumir responsabilidades demais mesmo quando o corpo já dá sinais de cansaço?
Na Gestalt-Terapia, chamamos esses padrões de ajustamentos criativos que se tornaram rígidos. O termo pode parecer complexo, mas ele descreve algo muito humano: a capacidade que temos de nos adaptar às situações – e o risco de, com o tempo, essas adaptações virarem prisões.
Este texto é um convite para você olhar para seus próprios padrões com mais curiosidade e menos julgamento. Afinal, a rigidez não é um defeito de caráter – é uma adaptação que um dia fez sentido, mas que hoje pode estar te afastando de si mesmo .
O que é ajustamento criativo?
O conceito de ajustamento criativo é nuclear na Gestalt-Terapia . Diferente de outras abordagens que enxergam o ser humano em constante conflito entre seus impulsos "primitivos" e as exigências sociais, a Gestalt propõe uma visão mais integrada e otimista: desde que nascemos, vamos nos ajustando ao mundo de forma criativa para atender nossas necessidades e sobreviver .
O self – essa capacidade que temos de nos relacionar com o mundo – é definido justamente como "o sistema de ajustes criativos" . Em outras palavras, nós somos esse processo contínuo de encontrar soluções viáveis para viver, considerando ao mesmo tempo:
Nossas necessidades (o que o organismo pede)
As possibilidades do ambiente (o que o mundo oferece)
Nossa história (quem aprendemos a ser)
O aspecto criativo está em encontrar diferentes possibilidades de solução. O aspecto de ajuste implica que essas soluções precisam ser compatíveis com o entorno – não se trata de se submeter ao mundo, mas de encontrar um equilíbrio dinâmico entre si mesmo e o ambiente .
Quando o ajustamento vira rigidez
O problema não está no ajustamento em si – ele é saudável e necessário. A questão é quando esses ajustamentos, que um dia foram úteis, se tornam rígidos e cristalizados .
Um exemplo prático:
Imagine uma criança que aprende, desde cedo, que não pode demonstrar fragilidade. Em um ambiente onde a vulnerabilidade era punida ou ignorada, esse ajustamento criativo a protegeu. Ela aprendeu a "se virar sozinha", a não pedir ajuda, a engolir o choro.
Anos depois, essa mesma pessoa, agora adulta, continua funcionando no piloto automático: não consegue pedir apoio no trabalho, evita se abrir em relacionamentos, acumula tensões até o corpo gritar. O que um dia foi proteção, hoje virou prisão.
Na clínica gestáltica, entendemos que as neuroses – ou os sofrimentos psíquicos – são "inibições variadas do processo de contatar o presente" . Em outras palavras, é a dificuldade de estar aqui e agora de forma flexível, porque estamos repetindo padrões do passado que já não fazem sentido.
Perls, Hefferline e Goodman, os fundadores da Gestalt, descrevem o self como um processo temporal, uma dinâmica de trocas entre o organismo e o meio . Quando esse processo se interrompe ou se fixa, perdemos a capacidade de nos renovar a cada momento.
As interrupções do ajustamento criativo
Na prática clínica, observamos que a rigidez se manifesta em diferentes formas de interromper o contato com o mundo e consigo mesmo. Essas interrupções são padrões que, embora tenham sido criativos em sua origem, hoje operam de forma automática:
🌀 Confluência – dificuldade de diferenciar seus desejos dos desejos alheios. "O que você quer é o que eu quero."
📥 Introjeção – engolir regras e crenças sem digerir. "Sempre foi assim, deve ser assim."
🎭 Projeção – atribuir ao outro o que é seu. "Você está com raiva de mim" (quando, na verdade, é você que está).
🔄 Retroflexão – fazer consigo o que gostaria de fazer com o outro. Tensão muscular, autocobrança, sintomas psicossomáticos.
👁️ Egotismo – observar-se de fora, como espectador da própria vida, sem se envolver genuinamente.
Nenhum desses padrões é "errado". Eles se tornam problemáticos quando deixamos de ter escolha – quando a rigidez nos impede de experimentar outras formas de estar no mundo.
E na prática, como isso se aplica à sua vida?
Se você se identifica com algumas das situações abaixo, talvez esteja vivendo um ajustamento criativo que já não te serve mais:
No trabalho:
Você centraliza tarefas por medo de delegar e perder o controle
Diz "sim" para demandas extras mesmo quando está esgotado
Acredita que "se eu não fizer, ninguém faz" – e carrega o mundo nas costas
Nos relacionamentos:
Evita conversas difíceis com medo de conflitos
Antecipa as necessidades dos outros e esquece as suas
Tem dificuldade de pedir ajuda ou demonstrar vulnerabilidade
Com você mesmo:
Seu corpo dá sinais (tensão, insônia, dores) que você insiste em ignorar
Você se cobra além da conta e raramente se sente satisfeito
Tem a sensação de estar "no automático", repetindo os mesmos ciclos
Esses padrões não surgiram do nada. Eles foram, em algum momento, soluções criativas para lidar com situações difíceis. Mas o que um dia foi força, hoje pode ser peso.
O caminho da flexibilidade
A boa notícia é que a rigidez pode ser amolecida. A terapia não é sobre "consertar" algo que está quebrado, mas sobre ampliar a awareness – tornar-se mais consciente dos seus padrões e, a partir daí, experimentar novas possibilidades .
Na abordagem gestáltica, não buscamos "derrubar" as resistências do paciente. Pelo contrário, acolhemos o ajustamento conservador como ele é, perguntando: "Como isso te serve hoje?", "Como é que isso te ajuda a sobreviver?", "O que aconteceria se você agisse diferente?".
O convite não é para abandonar quem você é, mas para se aproximar de si mesmo com mais curiosidade e menos cobrança. É sobre recuperar a flexibilidade de escolher, em cada momento, a resposta mais viva e autêntica – em vez de repetir automaticamente o que um dia aprendeu.
Um convite
A vida é feita de ajustes. A cada instante, somos chamados a nos adaptar, a criar, a recriar. Mas quando a adaptação vira repetição, a criatividade adoece – e a gente também.
Se você, como líder, sente que seus padrões têm se repetido mais do que gostaria, se a rigidez tem tomado espaço da leveza – na tomada de decisão, na relação com sua equipe ou na forma como se cobra – talvez seja hora de olhar para isso com mais cuidado. Não para se criticar, mas para se reconhecer.
Na terapia, construímos juntos um espaço seguro para você experimentar novas formas de ser e estar na liderança e na vida. Um lugar onde seus ajustamentos são acolhidos, não julgados – e onde novas possibilidades podem emergir, tanto para você quanto para aqueles que lidera.
Atendo líderes e gestores brasileiros online, no Brasil e no exterior, com escuta acolhedora, respeito à sua história e compreensão única das pressões do seu dia a dia. Se você sente que esse olhar faz sentido para o seu momento, estou aqui para caminhar com você.



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