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Ansiedade: quando o futuro pesa demais no presente

  • Foto do escritor: anaclaudiapsicolog5
    anaclaudiapsicolog5
  • 28 de abr.
  • 7 min de leitura

Atualizado: 15 de mai.

"A ansiedade é a brecha entre o 'agora' e o 'depois'. A ansiedade sempre é o resultado de se afastar do agora."

— Fritz Perls 


Close-up view of a serene workspace with a plant and a notebook
Close-up view of a serene workspace with a plant and a notebook

Você já percebeu que, quando a ansiedade chega, sua mente parece estar sempre alguns passos à frente? Projetando cenários, antecipando problemas, tentando controlar o que ainda não aconteceu. O corpo está aqui, mas a mente já viajou para o futuro – e lá, quase sempre, algo dá errado.


Essa experiência é cada vez mais comum. O Brasil, segundo a Organização Mundial da Saúde, é o país com a maior prevalência de transtornos de ansiedade do mundo: cerca de 9,3% da população brasileira tem diagnóstico de algum transtorno ansioso . E mesmo quem não preenche critérios diagnósticos convive diariamente com os efeitos da ansiedade: a mente acelerada, a tensão no corpo, a dificuldade de desacelerar.


Na Gestalt-Terapia, compreendemos a ansiedade não como um problema isolado, mas como um fenômeno que emerge na relação entre a pessoa e o mundo – uma interrupção no fluxo natural da experiência . Este artigo é um convite para olharmos juntos para esse movimento tão humano e, a partir de conceitos gestálticos, encontrar caminhos para acolher a ansiedade com mais compreensão e menos luta.


O que é ansiedade? Uma visão integrada


Antes de mergulharmos na perspectiva gestáltica, é importante compreender a ansiedade em sua complexidade.


A ansiedade envolve um sujeito, seus sentimentos, comportamentos e o seu contexto. Olhar para esse sujeito como um ser completo, de forma holística, é imprescindível . Além disso, a ansiedade "tem diferentes intensidades para diferentes pessoas e, na mesma pessoa, diferentes intensidades a cada situação ansiogênica" .


Uma distinção fundamental é entre medo e ansiedade:


Direcionamento


  • Medo: ameaça iminente, real ou percebida

  • Ansiedade: antecipação de ameaça futura


Função


  • Medo: preparo fisiológico imediato para ação (luta ou fuga)

  • Ansiedade: preocupação, tensão e vigilância


Temporalidade


  • Medo: presente

  • Ansiedade: futuro



O medo tem características autonômicas: ativa o sistema nervoso simpático, preparando o corpo para agir. A ansiedade, por sua vez, se caracteriza por uma preocupação, tensão e vigilância em relação a um perigo que poderá, ou não, ocorrer num futuro .

Ênio Brito Pinto, importante autor gestáltico brasileiro, nos lembra que "a ansiedade é central e ontológica, o medo é periférico e circunstancial" . Sendo ontológica, a ansiedade faz parte da condição humana – uma vida sem ansiedade é praticamente impossível. Ela é fonte de estímulo e motivação, mantém o alerta, preza pela sobrevivência através da precaução de possíveis ameaças à integridade física e psicológica .


A ansiedade dita normal ou adaptativa é aquela que vivemos a todo momento ao fazer escolhas na vida . Já a ansiedade patológica é desproporcional ao vivido, excessiva e persistente, causando prejuízo significativo nas atividades diárias – profissional, social, familiar .


A ansiedade na perspectiva da Gestalt-Terapia


Na Gestalt-Terapia, a ansiedade é compreendida de forma profundamente conectada à nossa experiência no aqui-agora e à nossa capacidade de estar em contato com o mundo.


Ansiedade como excitação bloqueada


Um dos conceitos mais fundamentais para entender a ansiedade na Gestalt é a relação entre ansiedade e excitação. Perls, Hefferline e Goodman definem a ansiedade como o resultado de uma "excitação bloqueada" .


A excitação é um estado de ativação, tanto psíquica quanto física, que acompanha a experiência humana. Ela se desenvolve ao longo do ciclo de contato – o processo pelo qual nos relacionamos com o mundo e satisfazemos nossas necessidades :


  • Na sensação, emerge uma necessidade sob forma de sensações físicas, percepções ou pensamentos

  • A sensação torna-se awareness e o organismo se orienta no ambiente

  • Na mobilização da energia, o organismo reúne os recursos necessários para agir

  • Na ação, a energia é empregada concretamente para contatar o ambiente

  • No contato pleno, a pessoa vive a experiência de forma total e vital

  • No retiro, a experiência é elaborada e arquivada, permitindo que uma nova gestalt emerge


Quando o ciclo flui livremente, a excitação aumenta gradualmente até culminar no contato pleno e depois se dissipar naturalmente. No entanto, se durante o ciclo a excitação sofre interrupções, sendo bloqueada, inibida ou desviada, ela pode emergir sob a forma de ansiedade .


Nas palavras de Ênio Brito Pinto: "A ansiedade é central e ontológica" . Quando não há suporte – interno ou ambiental – para sustentar a excitação e levar o ciclo a termo, a energia fica retida, estagnada, e se manifesta como ansiedade.


O sintoma como mensageiro


Na visão gestáltica, o sintoma não é um inimigo a ser combatido, mas um mensageiro que traz informações importantes sobre o que está desequilibrado no campo organismo/ambiente . A ansiedade nos diz que algo no ciclo da experiência está sendo interrompido – que há uma gestalt incompleta pedindo atenção.


Como aponta Schmidt, a Gestalt-terapia é um possível caminho para o tratamento não da ansiedade, mas da pessoa com ansiedade, principalmente através da promoção de awareness e da busca de ajustamentos mais criativos, funcionais e saudáveis .


As interrupções do contato e a ansiedade


Em cada fase do ciclo de contato, a excitação pode ser interrompida de diferentes maneiras, dando origem a manifestações específicas da ansiedade :


Na fase da sensação


  • A excitação é bloqueada antes que a figura possa emergir claramente do fundo

  • A ansiedade não é digerida e permanece no plano somático

  • Manifestações: tensões musculares crônicas, desconfortos gastrointestinais, sensação de mal-estar difuso, sintomas psicossomáticos


Na fase da awareness (introjeção)


  • Regras e padrões morais rígidos impedem que certos impulsos ou necessidades cheguem à consciência

  • O que foi "engolido" sem digestão crítica bloqueia o emergir autêntico

  • Manifestações: pensamentos intrusivos, ruminação mental, sintomas obsessivos


Na fase de mobilização (projeção)


  • Emoções e impulsos são reprimidos e atribuídos ao mundo externo

  • A pessoa não reconhece em si o que projeta nos outros

  • Manifestações: objeto fóbico (o perigo está lá fora), certezas rígidas, desconfiança generalizada


 Na fase de ação (retroflexão)


  • A energia que deveria ser dirigida ao ambiente é voltada contra si mesmo

  • Impulsos agressivos ou de afirmação são contidos e redirecionados

  • Manifestações: autocobrança excessiva, tensão muscular, dores de cabeça, sintomas psicossomáticos


Na fase de contato (egotismo)


  • A pessoa se observa de fora, como espectadora da própria experiência

  • Há dificuldade de se envolver genuinamente, de "mergulhar" no contato

  • Manifestações: sensação de irrealidade, estranhamento de si, ansiedade social


Nenhum desses padrões é "errado" ou "patológico" em si. Eles se tornam problemáticos quando deixamos de ter escolha – quando a rigidez nos impede de experimentar outras formas de estar no mundo e a ansiedade se torna crônica, desproporcional, paralisante.


A ansiedade e o tempo: o futuro que pesa demais


A característica central da ansiedade, como vimos, é sua orientação para o futuro. A pessoa com ansiedade vive projetada no amanhã, antecipando cenários catastróficos, tentando controlar o incontrolável.


A Gestalt-Terapia nos oferece uma ferramenta poderosa para lidar com isso: o foco no presente. A focalização no aqui-agora permite interromper as projeções no futuro . Quando trazemos a pessoa de volta ao momento presente – ao que ela sente agora, no corpo, na respiração, na experiência imediata – a ansiedade tende a diminuir.


Isso não significa negar a importância do futuro ou do passado. Como bem lembrou Laura Perls, o passado existe no presente como memória, nostalgia, história; o futuro existe como antecipação, projeto, esperança . O que a Gestalt propõe é que possamos estar em contato com essas dimensões a partir do presente, com consciência e escolha, em vez de sermos arrastados por elas no piloto automático.


O caminho terapêutico: da rigidez à fluidez


O trabalho com a ansiedade na Gestalt-Terapia não se concentra na diferenciação entre "saudável" e "patológico", mas sim entre "interromper" e "fluir" . O sintoma interrompe a dinâmica figura/fundo; a pessoa não consegue mais sentir claramente suas próprias necessidades e muito menos satisfazê-las.


O objetivo da terapia é ajudar a pessoa a:


  • Tomar consciência de como interrompe sua própria energia

  • Desenvolver auto-suporte para rastrear o fluir natural do ciclo da experiência

  • Reconhecer seus padrões de interrupção sem julgamento

  • Experimentar novas possibilidades de contato


Através de perguntas como: "O que você sente agora?", "Como faz o que faz?", "O que evita e como evita?", "O que espera que aconteça?" – o terapeuta facilita o processo de a pessoa se diferenciar do mundo, reconhecer suas próprias necessidades e recuperar a responsabilidade sobre suas escolhas.


O convite é passar da excitação fixada em ansiedade para a excitação ativa e criadora. Da rigidez para a fluidez. Da antecipação catastrófica para a presença no aqui-agora.


E na sua vida, como a ansiedade se manifesta?


Se você se identifica com algumas das situações abaixo, talvez a ansiedade esteja pedindo atenção em sua vida:


No corpo:


  • Tensão muscular constante, especialmente nos ombros, pescoço ou mandíbula

  • Respiração curta ou superficial, dificuldade de "pegar ar"

  • Coração acelerado sem motivo aparente

  • Problemas gastrointestinais recorrentes

  • Fadiga mesmo sem grande esforço físico


Na mente:


  • Pensamentos que não param, como uma "mente ligada no 220v"

  • Dificuldade de concentração no presente

  • Antecipação de cenários catastróficos

  • Preocupação excessiva com o futuro


No comportamento:


  • Dificuldade de relaxar ou "desligar"

  • Procrastinação por medo de não dar conta

  • Evitação de situações novas ou desafiadoras

  • Necessidade de controle sobre variáveis incontroláveis


O primeiro passo não é eliminar a ansiedade, mas reconhecê-la como mensageira – acolher o que ela tem a dizer sobre necessidades não atendidas, gestalten incompletas, ajustamentos que já não servem.


Um convite+


A ansiedade não é uma inimiga a ser combatida. Ela é parte da nossa humanidade, um sinal de que algo, em nosso campo organismo/ambiente, pede atenção. Na Gestalt-Terapia, aprendemos a olhar para a ansiedade como um fenômeno a ser compreendido – uma expressão do organismo que nos convida a ampliar nossa consciência e a encontrar formas mais criativas de estar no mundo.


Se você sente que a ansiedade tem ocupado espaço demais na sua vida – seja no corpo, na mente ou nas relações – talvez seja hora de parar e escutar. A terapia é esse espaço de escuta.


Atendo adultos online, no Brasil e no exterior, com escuta acolhedora e respeito à sua história. Se você sente que esse olhar faz sentido para o seu momento, estou aqui para caminhar com você.


Este site oferece conteúdo informativo sobre saúde emocional e não substitui acompanhamento profissional individualizado.


Referências utilizadas


  • PERLS, F.; HEFFERLINE, R.; GOODMAN, P. Gestalt-Terapia. São Paulo: Summus, 1997. 

  • PINTO, Ênio Brito. Ansiedade: defesa ou defeito. In: ABG – Associação Brasileira de Gestalt-terapia e Abordagem Gestáltica (org.). Vozes em letras: olhares da Gestalt-terapia para a situação de pandemia. Curitiba: CRV, 2020. 

  • PINTO, Ênio Brito. Dialogar com a ansiedade: uma vereda para o autocuidado. São Paulo: Summus, 2021. 

  • PINTO, Ênio Brito. Ansiedade e seus transtornos na visão de um Gestalt-terapeuta. In: FRAZÃO, L. M.; FUKUMITSU, K. O. (org.). Quadros Clínicos disfuncionais e Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 2017. 

  • SCHMIDT, Ana Carolina. O tratamento da (pessoa com) ansiedade à luz da Gestalt-terapia. IGT na Rede, v. 20, n. 39, 2023. 

  • Dicionário de Gestalt-terapia (gestaltês). D'ACRI, Gladys; LIMA, Patrícia; ORGLER, Sheila. São Paulo: Summus, 2007. 

  • AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. 5ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2023.

 
 
 

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