"Pertencer é poder ser visto e acolhido em sua diferença. E cuidar de si é o primeiro passo para que esse pertencimento seja autêntico."
— Teresinha Mello da Silveira
Você já se sentiu culpado por tirar um tempo para si? Por dizer "não" para algo que não cabia mais? Por parar, com uma lista de tarefas gigante? Essa sensação de que cuidar de si seria egoísmo é mais comum do que parece, especialmente em uma cultura que valoriza a produtividade, a disponibilidade constante e o sacrifício pessoal em nome do outro.
Na Gestalt-Terapia, aprendemos que cuidar de si não é um luxo – é uma necessidade. É a partir do contato consigo mesmo que nasce a possibilidade de estar com o outro de forma mais autêntica e presente. Longe de ser egoísmo, o autocuidado é a base sobre a qual construímos relações mais saudáveis e uma vida mais inteira.
Este artigo é um convite para olharmos juntos para esse tema tão fundamental, a partir de conceitos gestálticos que nos ajudam a compreender por que cuidar de si é, na verdade, um ato de profunda responsabilidade consigo e com o mundo.
Antes de tudo, é preciso compreender que, na Gestalt-Terapia, não existe um "eu" isolado. Como nos lembra Jean-Marie Robine, um dos mais importantes teóricos contemporâneos da abordagem, "o self é contato" . Isso significa que quem somos emerge na relação – com o outro, com o ambiente, com o mundo.
O self não é uma estrutura fixa dentro de nós, mas um processo temporal, uma função de contato que se atualiza a cada situação . Nessa perspectiva, o autocuidado não pode ser entendido como um movimento de isolamento ou afastamento do mundo. Pelo contrário: é um movimento de aproximação da própria experiência, um jeito de se reconhecer e se fortalecer para estar mais presente nas relações.
Todd Burley, gestalt-terapeuta norte-americano que influenciou profundamente a abordagem relacional, nos ensina que o terapeuta – e poderíamos estender a qualquer pessoa – precisa cultivar seu próprio espaço de cuidado para poder oferecer presença genuína ao outro . Como ele próprio descobriu em sua trajetória, "os curadores também precisam de cura" . Essa sabedoria vale para todos nós: só podemos cuidar do outro na medida em que também nos permitimos ser cuidados.
Um dos conceitos centrais da Gestalt para compreender o autocuidado é o ajustamento criativo. Desde que nascemos, vamos nos ajustando ao mundo de forma criativa para atender nossas necessidades e sobreviver. O problema não está no ajustamento em si – ele é saudável e necessário. A questão é quando esses ajustamentos, que um dia foram úteis, se tornam rígidos e cristalizados.
Muitas vezes, aprendemos desde cedo que cuidar do outro é virtude e cuidar de si é egoísmo. Esse ajustamento criativo – que pode ter nos protegido em determinados contextos – torna-se uma prisão quando nos impede de atender necessidades legítimas. A pessoa passa a:
Dizer "sim" quando quer dizer "não"
Colocar as necessidades alheias sempre à frente das suas
Sentir culpa quando tira um tempo para si
Ignorar os sinais do corpo até que eles gritem
Na perspectiva gestáltica, isso representa uma interrupção no ciclo de contato. A energia que deveria ser dirigida para a satisfação de necessidades legítimas é desviada, contida ou voltada contra si mesma – o que chamamos de retroflexão. O autocuidado deixa de ser uma possibilidade porque a pessoa aprendeu a se tratar com a mesma dureza com que foi tratada.
Jean-Marie Robine desenvolve extensamente o conceito de fronteira de contato – esse lugar virtual onde o eu e o outro se encontram, onde a experiência acontece . É na fronteira que nos diferenciamos sem nos isolarmos, que nos conectamos sem nos fundirmos.
O autocuidado saudável é justamente a capacidade de manter uma fronteira de contato clara e flexível. Quando essa fronteira é rígida demais, a pessoa se isola, não recebe o outro, não se permite ser cuidada. Quando é frágil demais, ela se funde, perde a noção de si, não consegue discriminar suas próprias necessidades das necessidades alheias.
Aprender a cuidar de si é, em grande medida, aprender a habitar a fronteira de contato de forma mais consciente. É poder dizer "não" sem culpa, pedir ajuda sem vergonha, acolher o próprio cansaço como informação legítima.
Teresinha Mello da Silveira, importante gestalt-terapeuta brasileira, nos lembra que "pertencer é poder ser visto e acolhido em sua diferença" . Essa diferença inclui nossas necessidades, nossos limites e nossos desejos. Quando nos permitimos cuidar de nós mesmos, estamos dizendo ao mundo: "minha existência importa, minhas necessidades são legítimas, meu lugar no mundo é meu".
Na prática clínica, observamos diferentes formas de interromper a possibilidade de autocuidado:
🌀 Confluência
Dificuldade de diferenciar suas necessidades das necessidades alheias
"Se eu cuidar de mim, estou abandonando o outro"
A pessoa se funde, perde a noção de onde termina e o outro começa
📥 Introjeção
Engolir regras e crenças sem digerir: "gente boa cuida dos outros", "pensar em si é feio"
Valores internalizados que não passaram por crítica consciente
A culpa aparece como mecanismo de controle
🎭 Projeção
Atribuir ao outro a própria necessidade de cuidado
"Fulano precisa de mim" (quando, na verdade, você precisa se cuidar)
A energia de cuidado é desviada para fora
🔄 Retroflexão
Fazer consigo o que gostaria de fazer com o outro ou o mundo
Tensão muscular, autocobrança, sintomas psicossomáticos
"Eu dou conta de tudo sozinho" vira sentença de isolamento
Nenhum desses padrões é "errado" ou "patológico" em si. Eles se tornam problemáticos quando deixamos de ter escolha – quando a rigidez nos impede de experimentar outras formas de estar no mundo e o autocuidado se torna impossível.
Na obra fundadora da Gestalt-Terapia, Perls, Hefferline e Goodman propõem que o self é um processo que se desdobra no tempo . Robine aprofunda essa compreensão ao afirmar que o self é temporalidade, e que a experiência saudável é aquela em que podemos nos desdobrar livremente, em contato com o que emerge a cada momento.
O autocuidado, nessa perspectiva, é a capacidade de responder criativamente às necessidades que emergem do organismo. Não é uma fórmula fixa – o que é cuidado hoje pode não ser amanhã. Trata-se de cultivar uma sensibilidade para perceber os sinais do corpo, as emoções que pedem passagem, os limites que precisam ser respeitados.
Quando a pessoa se permite cuidar de si, ela está, na verdade, ampliando sua awareness – tornando-se mais consciente de si mesma e do que acontece ao redor. E como nos disse Fritz Perls, "a awareness por si só é curativa" . O simples ato de trazer consciência para o que sentimos, pensamos e vivemos já é, em si mesmo, um movimento de transformação.
Longe de ser egoísmo, o autocuidado gera benefícios que se espraiam para todas as dimensões da vida:
Para si mesmo:
Desenvolvimento de uma relação mais amigável consigo
Maior clareza sobre limites e possibilidades
Redução da ansiedade e do estresse crônico
Fortalecimento da autoestima e da autoconfiança
Presença mais autêntica no dia a dia
Para as relações:
Capacidade de estar com o outro sem se perder
Relações mais equilibradas, com troca genuína
Menos ressentimento acumulado
Exemplo saudável para pessoas próximas
Para o trabalho:
Mais criatividade e disposição
Decisões mais conscientes
Menos risco de burnout
Liderança mais humana e sustentável
Como bem expressa a citação de Elizabeth Kübler-Ross, frequentemente lembrada em contextos terapêuticos: "As pessoas mais bonitas que conhecemos são aquelas que conheceram a derrota, o sofrimento, a luta, a perda, e encontraram seu caminho para sair das profundezas" . Cuidar de si é parte desse caminho.
A vivência que tive com Jean-Marie Robine pessoalmente marcou profundamente minha forma de estar na clínica. Em um encontro onde a teoria se fazia carne, pude experimentar como o autocuidado do terapeuta não é apenas recomendável – é indispensável. Robine nos lembra que o terapeuta precisa se perguntar constantemente: "a serviço de quem está minha intervenção?" . Essa pergunta vale para a vida: a serviço de quem está meu sacrifício? Minha abnegação? Minha dificuldade de cuidar de mim?
O autocuidado não é um destino a ser alcançado, mas um processo contínuo de atenção e escolha. É sobre estar presente para si mesmo da mesma forma que você gostaria de estar presente para quem ama. É sobre reconhecer que sua existência importa – e que cuidar de você é também cuidar do mundo, porque um mundo com pessoas mais inteiras, mais presentes, mais autênticas, é um mundo melhor para todos.
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PERLS, F.; HEFFERLINE, R.; GOODMAN, P. Gestalt-Terapia. São Paulo: Summus, 1997.
ROBINE, Jean-Marie. Contacto & relación en psicoterapia: Reflexiones sobre terapia Gestalt. Santiago de Chile: Cuatro Vientos, 2013.
ROBINE, Jean-Marie. O self desdobrado: Perspectiva de campo em Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 2006.
ROBINE, Jean-Marie. Which Figure to Disclose? Gestalt, n. 33, p. 25-42, 2007.
SILVEIRA, Teresinha Mello da. Currículo e produção acadêmica.
BURLEY, Todd. The Wounded Healer. Thrive, 2017.