"Todas as emoções se expressam no sistema muscular. Não se pode visualizar a ira sem movimento muscular. Não se pode visualizar a alegria sem movimentos musculares."
— Fritz Perls
Como vimos no artigo sobre ansiedade, a mente que não desliga à noite está frequentemente ocupada com o amanhã – preocupações, antecipações, cenários catastróficos.
Fritz Perls nos lembra: "A ansiedade é a brecha entre o 'agora' e o 'depois'" . A insônia é essa brecha que não se fecha.
Dificuldade de dormir pode estar ligada a perdas não processadas – de pessoas, de lugares, de fases da vida.
Jean-Marie Robine nos ensina que o self se desdobra no tempo, e quando há interrupções no fluxo temporal, o organismo não consegue se retirar adequadamente.
O corpo acumula tensões ao longo do dia. Se não há espaço para expressá-las, elas se manifestam à noite como agitação, insônia, despertares frequentes.
Todd Burley fala sobre a importância do auto-suporte – a capacidade de acolher e processar as próprias experiências. Sem isso, a energia fica retida.
Pessoas que precisam controlar tudo durante o dia têm dificuldade de "entregar" o controle à noite. Dormir exige entrega.
Teresinha Mello da Silveira nos lembra que "pertencer é poder ser visto e acolhido em sua diferença" – e entregar-se ao sono é também pertencer ao ritmo natural da vida.
Interrupção: A pessoa não percebe os sinais de cansaço durante o dia
Manifestação no sono: Vai dormir tarde, mesmo exausta, ignorando os avisos do corpo
Interrupção: Dificuldade de nomear o que sente
Manifestação no sono: Ao deitar, a mente fica dispersa, sem conseguir focar no relaxamento
Interrupção: Energia acumulada não encontra vazão
Manifestação no sono: Agitação noturna, sensação de "pernas inquietas", tensão muscular
Interrupção: Não houve ações satisfatórias durante o dia
Manifestação no sono: A mente repete situações não resolvidas, busca "fechar" questões
Interrupção: Experiências vividas de forma superficial
Manifestação no sono: Sono leve, despertares frequentes, sensação de noite mal dormida
Interrupção: Dificuldade de se desligar do mundo
Manifestação no sono: Insônia inicial, demora para pegar no sono
Ao longo da minha trajetória profissional, o contato com o sono em diferentes contextos aprofundou minha compreensão sobre sua importância.
Na UTI Neonatal da Maternidade Santa Luíza, acompanhava bebês prematuros que lutavam pela vida. O sono deles era frágil, constantemente interrompido por procedimentos médicos, ruídos, luzes. Ali aprendi que o sono é a primeira grande tarefa do organismo – e que um ambiente acolhedor faz toda a diferença. As famílias que conseguiam estar presentes, tocando, falando baixinho, ajudavam seus bebês a regular o sono e, com isso, a ganhar peso e força.
No Asilo Dom Bosco, com idosos institucionalizados, o sono revelava outras camadas. Acompanhar essas pessoas me mostrou como o sono está ligado à qualidade do tempo vivido durante o dia. Quem vive dias vazios, tem noites inquietas.
Essas experiências, somadas à formação em Gestalt-Terapia e às vivências com Jean-Marie Robine, Karina Okajima Fukumitsu, Guillermo Leone e outros, consolidaram em mim a certeza de que cuidar do sono é cuidar da vida como um todo.
Na clínica com adultos, frequentemente encontro pacientes que chegam com queixas de insônia. O trabalho terapêutico não se concentra em "técnicas para dormir", mas em ampliar a awareness sobre o que interrompe o fluxo natural do sono.
Algumas perguntas que guiam esse processo:
O que você sente no corpo quando se deita?
Que pensamentos costumam aparecer nessa hora?
O que ficou pendente no seu dia?
Que emoções você não conseguiu expressar?
Como é para você se entregar ao descanso?
Aos poucos, a pessoa vai reconhecendo seus padrões – a tendência a controlar, a dificuldade de pedir ajuda, a sobrecarga de responsabilidades – e, com isso, abrindo espaço para novas possibilidades. O sono começa a se regular naturalmente, como consequência de uma vida mais integrada.
Todd Burley, em seu trabalho sobre o curador ferido, nos lembra que "os curadores também precisam de cura" . Cuidar de si é o primeiro passo para cuidar do outro – e isso inclui cuidar do próprio sono. Quando a pessoa se permite descansar, ela está, na verdade, se autorizando a existir de forma mais plena.
Se você se identifica com algumas das situações abaixo, talvez seja hora de escutar o que seu sono tem a dizer:
Você demora mais de 30 minutos para pegar no sono, várias vezes por semana
Acorda no meio da noite e não consegue voltar a dormir
Seu sono é leve, qualquer barulho te acorda
Você acorda cansado, mesmo depois de 8 horas na cama
Tem pesadelos frequentes ou sonhos angustiantes
Durante o dia, sente sonolência, dificuldade de concentração, irritabilidade
Esses sinais são figuras emergentes que pedem atenção. Ignorá-los pode levar a problemas mais graves. Acolhê-los é o primeiro passo para restaurar o equilíbrio.
O sono não é um luxo, nem uma perda de tempo. É uma função vital, tão importante quanto respirar, comer, amar. Quando dormimos, o organismo se reorganiza, processa emoções, consolida memórias, restaura energias. Cuidar do sono é cuidar da vida.
Na terapia, construímos juntos um espaço seguro para você explorar o que está por trás das suas noites mal dormidas. Não se trata de "consertar" o sono, mas de ampliar sua consciência sobre o que interrompe seu fluxo natural – e, a partir daí, encontrar formas mais saudáveis de viver (e de dormir).
Atendo adultos online, no Brasil e no exterior, com escuta acolhedora e respeito à sua história. Se você sente que esse olhar faz sentido para o seu momento, estou aqui para caminhar com você.
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PERLS, F.; HEFFERLINE, R.; GOODMAN, P. Gestalt-Terapia. São Paulo: Summus, 1997.
PERLS, Fritz. A abordagem gestáltica e testemunha ocular da terapia. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.
ROBINE, Jean-Marie. Contacto & relación en psicoterapia: Reflexiones sobre terapia Gestalt. Santiago de Chile: Cuatro Vientos, 2013.
ROBINE, Jean-Marie. O self desdobrado: Perspectiva de campo em Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 2006.
BURLEY, Todd. The Wounded Healer. Thrive, 2017.
SILVEIRA, Teresinha Mello da. Entrevista. IGT na Rede, v. 2, n. 2, 2005.
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