"Pertencer é poder ser visto e acolhido em sua diferença."
— Teresinha Mello da Silveira
Todd Burley, outro autor relevante na tradição gestáltica, enfatiza que o self não é uma estrutura estática, mas um processo contínuo de ajustamento criativo. É na fronteira de contato – entre o que somos e o mundo que nos cerca – que a experiência de pertencimento (ou sua falta) se constrói a cada momento.
"A identidade é uma construção que se dá na relação, e não um dado a priori."
— Alcides Ignácio Junior
A experiência migratória é talvez o exemplo mais vívido do não pertencimento. O imigrante vive em um entre-lugar: carrega consigo a cultura de origem, mas habita um novo território com códigos, línguas e valores diferentes. Como Robine nos lembra, a função-personalidade do self muitas vezes nos leva a "intenções repetitivas através de atos que impedem o contato com a novidade" .
No caso do imigrante:
A identidade narrativa construída no país de origem (quem eu era) pode não encontrar ressonância no novo contexto
Os ajustamentos criativos que funcionavam antes podem se tornar rígidos e inadequados
A fronteira de contato torna-se um lugar de estranhamento, não de encontro
A pesquisa com imigrantes revela que o processo migratório envolve questões profundas de identidade, luto e reconstrução de si. O imigrante precisa elaborar múltiplos lutos: da terra, da língua, do status social, dos vínculos afetivos. E nesse processo, a sensação de não pertencer a lugar nenhum pode se tornar avassaladora.
Como propõe Robine, precisamos abordar o encontro terapêutico a partir da intencionalidade que emerge na situação, antes de qualquer formação consciente de intenção . Para o imigrante, isso significa acolher o vago, o confuso, o não-consciente que habita esse entre-lugar – sem pressa de chegar a uma definição ou síntese prematura.
Mas não é preciso cruzar fronteiras geográficas para experimentar o não pertencimento. Profissionais que transitam entre diferentes culturas organizacionais, empreendedores que criam seus próprios negócios, líderes que ocupam posições de solidão hierárquica – todos podem viver formas sutis de deslocamento.
Teresinha Mello da Silveira, importante gestalt-terapeuta brasileira, desenvolve em suas obras sobre casais e famílias a compreensão de como os sistemas íntimos – e poderíamos estender às organizações – criam dinâmicas de pertencimento e exclusão . A cultura organizacional pode ser pensada como um campo que define certas possibilidades de ser e estar, e exclui outras.
Quando há descompasso entre o self que emerge no profissional e as exigências ou valores do ambiente de trabalho, a sensação de não pertencimento se instala:
"Preciso esconder partes de mim para ser aceito"
"Sinto que não posso ser autêntico aqui"
"Há um jeito certo de ser que não é o meu"
A rigidez desses ajustamentos impede o contato genuíno e mantém a pessoa em um estado de alerta e estranhamento permanente.
Robine nos alerta para o que chama de "diferenciação prematura" – a tendência de atribuir precocemente ao indivíduo responsabilidades que ainda não pode assumir, ou de separá-lo artificialmente do campo em que emerge . No contexto do pertencimento, isso se manifesta quando:
A pessoa se culpa por não se "encaixar"
Assume que o problema é exclusivamente seu
Busca soluções individuais para fenômenos que são relacionais
A proposta de Robine é radicalmente diferente: cada situação, cada encontro, cada experiência "reabre o canteiro metafórico da construção, na medida em que o sujeito se abre às diferenças, à novidade, à incerteza ou ao desconhecido" .
O pertencimento, então, não é um destino a ser alcançado, mas um processo contínuo de construção. Pertencemos na medida em que:
Nos abrimos à novidade da situação
Permitimos que o self se reconfigure no encontro com o outro
Sustentamos a incerteza sem buscar sínteses prematuras
A psicoterapia, na perspectiva de campo proposta por Robine, é "primeiramente a construção de uma situação" . Uma situação que, nas palavras de G. Debord citadas por Robine, é a "construção concreta de ambientes momentâneos da vida e sua transformação em uma qualidade passional superior" .
No setting terapêutico, o não pertencimento pode ser acolhido e explorado como fenômeno do campo, não como questão individual. O terapeuta, como o sábio da parábola dos camelos citada por Robine, oferece uma presença que, inicialmente indispensável, torna-se gradualmente dispensável – permitindo que novas configurações emergiam .
O trabalho terapêutico envolve:
Ampliar a awareness
Tomar consciência de como a pessoa interrompe seu próprio fluxo de contato
Perceber os padrões rígidos que impedem o pertencimento
Identificar as situações em que o self emerge de forma autêntica versus aquelas em que se contrai
Explorar a fronteira de contato
Como a pessoa se aproxima e se afasta do outro?
Onde estão as interrupções que mantêm a sensação de deslocamento?
Que ajustamentos criativos, que um dia foram úteis, hoje se tornaram prisões?
Experimentar novas possibilidades
Na segurança da relação terapêutica, testar novos modos de ser e estar
Permitir-se emergir diferentemente em cada situação
Sustentar a incerteza sem buscar respostas definitivas
Se você se identifica com algumas das situações abaixo, talvez a experiência do não pertencimento esteja pedindo escuta:
Na imigração:
Você se sente dividido entre dois países, sem pertencer inteiramente a nenhum
A saudade pesa mais do que a adaptação
Você se cansa de se explicar, de traduzir não só a língua, mas quem você é
Na vida profissional:
Você ocupa posições de liderança, mas sente-se solitário
A cultura da empresa parece exigir que você seja alguém que não é
Você empreende, mas carrega a sensação de não ter um "lugar" fixo
Na vida afetiva e social:
Você tem dificuldade de encontrar grupos onde realmente se sente acolhido
A sensação de ser "diferente" ou "estranho" acompanha você desde sempre
Você se adapta aos outros, mas sente que sua autenticidade fica de fora
O não pertencimento não é uma sentença. É um sinal – uma figura que emerge do campo – indicando que algo na relação entre você e o mundo pede reorganização.
Como nos lembra a lenda árabe citada por Robine, sem a introdução de outro, a situação é um beco sem saída . O terapeuta oferece uma presença que permite que novas configurações emergiam – uma presença indispensável que, como o camelo do sábio, torna-se gradualmente dispensável, porque a tarefa foi cumprida.
Na terapia, construímos juntos uma situação onde o não pertencimento pode ser acolhido, explorado e, talvez, transformado. Não se trata de "encontrar seu lugar" como se ele existisse pronto em algum lugar. Trata-se de participar ativamente da criação dos lugares onde você pode, autenticamente, emergir.
Atendo adultos online, no Brasil e no exterior, com escuta acolhedora e respeito à sua história. Se você sente que esse olhar faz sentido para o seu momento, estou aqui para caminhar com você nessa travessia.
Agende uma conversa e vamos nos conhecer.
📲 WhatsApp: (53) 99146-0269
📧 E-mail: anaclaudiapsicologaonline@gmail.com
🌐 Atendimento online para todo o Brasil e exterior
PERLS, F.; HEFFERLINE, R.; GOODMAN, P. Gestalt-Terapia. São Paulo: Summus, 1997.
ROBINE, Jean-Marie. Intentionality, in flesh and blood: Toward a fore-contact psychopathology. International Gestalt Journal, v. XXVI, n. 2, Autumn 2003.
ROBINE, Jean-Marie. Situation, Field Perspective and Formation of Forms in Gestalt Therapy: Social Change Begins with Two. 2nd ed. Routledge, 2026.
SILVEIRA, Teresinha Mello da. Entrevista. IGT na Rede, v. 2, n. 2, 2005.
SILVA, Daniela Magalhães da; SILVEIRA, Teresinha Mello da (orgs.). Casais e Famílias – Volume 2: Questões Contemporâneas. Curitiba: Juruá, 2022.