"O luto não é um estado a ser superado, mas um processo a ser vivido. Não há como apressar a dor; ela tem seu próprio tempo, e é no acolhimento desse tempo que a cura se torna possível."
— Karina Okajima Fukumitsu
Você já sentiu que o mundo deveria parar, mas continua girando? Que as pessoas seguem suas vidas, enquanto você parece ter ficado preso em algum lugar? Essa sensação de estranhamento, de não pertencer mais ao tempo comum, é uma das marcas mais profundas do luto.
A morte de alguém significativo rompe com toda a constituição de mundo interno e segurança, exigindo que novas formas de ajustamento sejam criadas, para que o mundo interno possa ser reconstruído a partir de uma nova configuração . Mas o luto não se limita à morte de uma pessoa: também vivemos lutos por separações, por mudanças de cidade ou país, pela perda de um emprego, pela saída dos filhos de casa, pelo fim de um ciclo. São perdas que, mesmo não envolvendo a morte física, também pedem elaboração.
Na Gestalt-Terapia, compreendemos o luto como um processo natural e necessário de ajustamento criativo diante da perda. Este artigo é um convite para olharmos juntos para essa experiência tão humana – e tantas vezes silenciada – com mais acolhimento e menos pressa.
O luto é compreendido como o processo psíquico de elaboração de uma perda que rompe com toda a constituição de mundo interno e segurança da pessoa, exigindo que novas formas de ajustamento sejam criadas . Parkes entende este processo como uma aprendizagem, no qual a pessoa passa por um percurso significativo de mudança de sua percepção de mundo à medida que vai assimilando esta experiência.
É importante distinguir os conceitos:
Luto
Processo psicológico provocado pela perda de uma pessoa ou qualquer outra perda significativamente importante
Pesar
Complexo de sentimentos e pensamentos sobre a perda, vivenciados internamente – o significado interno dado à experiência do luto
Enlutamento
O processo de tornar o pesar público, quando a pessoa expressa e compartilha seus sentimentos com os que o cercam
As perdas fazem parte do desenvolvimento humano. A morte do outro traz à tona a consciência de nosso próprio fim, por isso, muitas vezes é mais temida do que a própria morte. É a possibilidade de experiência da morte, que não é nossa, mas que é vivida como se uma parte nossa morresse, uma parte ligada ao outro pelos laços estabelecidos.
Vivemos em uma sociedade que afasta a morte do convívio social. O contato com a possibilidade da perda é evitado, dificultando a expressão de sentimentos e angústias naturais ao luto e, consequentemente, sua elaboração.
Não se morre mais em casa, em meio aos entes queridos, mas sozinho, na UTI. No hospital, a morte é um fenômeno técnico, frio e mecanizado, declarada pela decisão de profissionais especializados. "No século XX há uma supressão do luto, escondendo-se a manifestação ou até mesmo a vivência da dor. Há uma exigência de controle, pois a sociedade não suporta enfrentar os sinais da morte".
As pessoas enlutadas, frequentemente, são encorajadas a abandonarem prematuramente seu processo de luto. O enlutado passa a comportar-se de maneira socialmente aceitável, o que contraria sua necessidade psicológica atual diante da perda. Em decorrência disso, ou o enlutado vive o seu processo isoladamente, ou é forçado a abandoná-lo antes que seja completado.
A pessoa "bem vista" seria aquela que, diante de uma grande alegria, sorrisse discretamente ao invés de dar uma boa e sonora gargalhada. Num momento de profunda tristeza, deveria deixar rolar uma discreta lágrima pela face, que seria logo enxugada para não causar constrangimento aos demais.
A Teoria do Apego e o luto
Bowlby, psiquiatra norte-americano, desenvolveu sua teoria do apego, com a qual tentou compreender a tendência dos seres humanos estabelecer fortes laços afetivos com os outros, e a forte reação emocional que ocorre quando estes laços ficam ameaçados ou são rompidos. Tais laços começam quando criança e advém da necessidade de segurança e proteção, admitindo um valor de sobrevivência.
Quando a figura de apego desaparece ou está ameaçada de desaparecer, a resposta é de intensa ansiedade emocional. Dessa forma, o luto trata-se de um aspecto negativo do vínculo e uma resposta à sua ruptura.
O Modelo do Processo Dual
O Modelo do Processo Dual, proposto por Stroebe e Schut, propõe que o enlutado oscila entre dois sentidos: um orientado para a perda e um orientado para a restauração. Em um processo saudável, a pessoa transita entre eles de forma não linear e não simultânea .
Orientado para a perda
Ocorre propriamente o trabalho de luto, expressão de pesar e sentimentos a ela relacionados, de forma a identificar e constituir recursos de suporte internos e externos
Orientado para a restauração
Movimentos relacionados à retomada da vida e retorno às atividades cotidianas, sendo identificados e constituídos, consequentemente, os recursos internos e externos
Este modelo traz importante luz sobre a compreensão do processo de luto, visto que possibilita o entendimento de que este processo não ocorre apenas quando se está no enfrentamento da dor, mas acontece também quando existe a necessidade de afastamento do sofrimento para retomada do cotidiano. Esta oscilação é fundamental para o processo de autorregulação organísmica e retomada da homeostase .
Este modelo de compreensão dialoga com a visão de saúde da Gestalt-terapia, que entende que a saúde está no movimento e ritmo entre as polaridades, e que o adoecimento acontece a partir de cristalizações e paralisações .
A dor que precisa entrar em contato
Na perspectiva gestáltica, a pessoa enlutada precisa trabalhar a dor da perda, entrando em contato com ela, manejando-a para que a experiência possa ser assimilada ao self .
Fritz Perls nos lembrava que "a awareness por si só é curativa" . O contato com a dor – por mais paradoxal que pareça – é o caminho para que ela possa se transformar. Evitar o sofrimento, apressar o processo, "engolir o choro" – tudo isso são formas de interromper o ciclo natural do luto, que precisa ser vivido em seu tempo.
Jean-Marie Robine, ao falar sobre o self como processo temporal, nos ajuda a compreender que o luto é uma reorganização do self no tempo. Não se trata de "superar" ou "esquecer", mas de assimilar a perda de forma que ela possa integrar-se à nossa história, sem deixar de ser dor, mas também sem paralisar a vida.
Teresinha Mello da Silveira, em seus escritos sobre vínculos, nos ensina que "pertencer é poder ser visto e acolhido em sua diferença". No luto, precisamos ser acolhidos em nossa dor, sem pressa, sem julgamentos, sem a exigência de "voltar ao normal".
"No luto, somos convidados a nos despir das máscaras sociais e a encontrar nossa forma mais autêntica de estar no mundo – ainda que essa forma seja, por um tempo, apenas a da dor."
— Karina Okajima Fukumitsu
Estudos em Gestalt-terapia apontam a distinção existente entre o luto funcional e o lutodisfuncional, percebendo que o que os separa são sutis fatores que devem ser avaliados de forma coerente, precisa e individual, compreendendo também que este processo não será vivenciado a partir de fases lineares e/ou com características prenunciadas.
Luto funcional: Processo em que a pessoa consegue, ao seu tempo e com seus recursos, entrar em contato com a dor, elaborar a perda e, gradualmente, retomar o contato com a vida, oscilando entre os movimentos de perda e restauração.
Luto disfuncional: Quando há uma interrupção no processo – seja por paralisação na dor, impedindo qualquer movimento de restauração; seja por negação da dor, com uma "retomada" apressada que não elabora verdadeiramente a perda.
Ao longo da minha trajetória profissional, o contato com o luto em diferentes contextos aprofundou minha compreensão sobre sua complexidade.
Na UTI Neonatal da Maternidade Santa Luíza, acompanhei famílias que viviam o luto antecipatório – bebês prematuros cuja vida era frágil, incerta. Ali aprendi que o luto começa antes da perda, e que acolher a esperança e o medo simultaneamente é parte do cuidado.
No Asilo Dom Bosco, com idosos institucionalizados, o luto era múltiplo: pela perda da autonomia, da casa, dos papéis sociais, dos amigos que partiam. A velhice, para muitos, é um exercício contínuo de lutos – e a presença de quem escuta faz toda a diferença.
Tive a oportunidade de conhecer Karina Fukumitsu pessoalmente em um workshop sobre perdas e suicídio em Joinville, experiência que marcou profundamente minha compreensão sobre o acolhimento ao enlutado. Aprendi com ela que o luto não se trata de 'superar', mas de 'integrar' – e é nessa integração que a vida pode seguir, transformada, mas não menos valiosa.
Na clínica com adultos, tenho acompanhado pessoas que perderam pais, cônjuges, filhos, amigos. E também aquelas que vivem lutos não reconhecidos socialmente – pelo fim de um relacionamento, pela perda de um animal de estimação, pela mudança de país. Aprendi que todo luto é legítimo e merece espaço.
Na clínica gestáltica com enlutados, o trabalho terapêutico envolve:
Ampliar a awareness
Tomar consciência dos sentimentos que emergem – raiva, tristeza, culpa, alívio, medo
Perceber como o corpo reage: tensões, choro, aperto, vazio
Identificar os padrões de interrupção: evitar o sofrimento, apressar o processo, se cobrar por "não superar"
Explorar a relação com a pessoa perdida
O que essa pessoa significava? Que lugar ocupava em sua vida?
Que gestalten ficaram incompletas? O que ficou por dizer, por fazer, por viver?
Como manter o vínculo simbólico sem paralisar a vida?
Construir novos ajustamentos criativos
Aos poucos, encontrar formas de assimilar a perda
Permitir-se oscilar entre a dor e a restauração, sem culpa
Redescobrir prazeres, sentidos, possibilidades
Criar rituais de despedida
Na Gestalt-terapia, experimentos como a self-box têm sido utilizados como recurso no manejo clínico de clientes enlutados, convidando o cliente à experimentação, ressignificando a perda, ajustando-se criativamente seu ser no mundo .
A presença do terapeuta como suporte é fundamental para que a pessoa possa percorrer seus ciclos de contato e alcançar a satisfação de suas necessidades no enfrentamento do luto .
Se você se identifica com algumas das situações abaixo, talvez esteja vivendo um processo de luto que pede escuta:
Você sente que não consegue "voltar ao normal", e isso te angustia
As pessoas ao redor parecem esperar que você já tenha superado
Você evita lugares, pessoas ou situações que lembram a perda
Há sentimentos que você não consegue nomear ou expressar
Seu corpo dói, seu sono mudou, sua energia diminuiu
Você se sente culpado por sentir alívio ou por momentos de distração
A data da perda se aproxima e tudo volta com mais força
Esses sinais são figuras emergentes que pedem atenção. Acolhê-los é o primeiro passo para que o luto possa, aos poucos, encontrar seu lugar.
O luto é uma travessia. Não tem prazo, não tem manual, não tem jeito certo ou errado. O que ele pede é espaço para ser sentido – sem pressa, sem julgamento, sem comparações.
Na terapia, construímos juntos um espaço seguro para você entrar em contato com sua dor, no seu tempo, do seu jeito. Não para "superar" a perda, mas para integrá-la à sua história de forma que ela não paralise sua vida.
Como nos ensina Parkes, a dor do luto é o preço que pagamos pelo amor . E esse preço merece ser acolhido com toda a dignidade.
"A dor da perda é proporcional à profundidade do vínculo. Quanto mais amamos, mais sofremos – e isso não é fraqueza, é a expressão mais genuína da nossa humanidade."
— Karina Okajima Fukumitsu
Atendo adultos online, no Brasil e no exterior, com escuta acolhedora e respeito à sua história. Se você sente que esse olhar faz sentido para o seu momento, estou aqui para caminhar com você nessa travessia.
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