"Nossas perdas não são castigos para o que fazemos mal. Nossas perdas são experiências que formam parte da vida."
— Karina Okajima Fukumitsu
"Eu não estava pronta para isso." Essas palavras, ditas por uma imigrante brasileira ao perder um familiar em seu país de origem, ecoam a experiência silenciosa de milhares de brasileiros que vivem fora do Brasil. A escolha de migrar envolve ganhos inegáveis – novas oportunidades, experiências, crescimento. Mas carrega também perdas que raramente são nomeadas.
O luto migratório é esse processo silencioso de elaboração das perdas vividas por quem deixou seu país para recomeçar em outro lugar. Não se trata apenas da saudade cotidiana, mas de um luto mais profundo: pela língua materna, pelos códigos culturais, pelos rituais compartilhados, pela presença física nos momentos cruciais da vida.
Pesquisas recentes com imigrantes brasileiros revelam que ansiedade e depressão se destacam como os indicadores de saúde mental mais recorrentes nessa população, apontando para cenários de adaptação que são férteis para o desenvolvimento de sofrimento psíquico. E quando a perda de um ente querido se soma a esse contexto, o sofrimento ganha contornos ainda mais complexos.
Este artigo é um convite para olharmos juntos para esse fenômeno tão humano – e tantas vezes invisibilizado –, compreendendo suas nuances e, principalmente, acolhendo as dores de quem vive entre dois mundos.
O conceito de luto migratório, também chamado de "transnational bereavement" (luto transnacional), descreve a experiência de elaborar perdas significativas – especialmente a morte de entes queridos – estando geograficamente distante do país de origem e de suas práticas culturais de despedida .
Uma pesquisa recente publicada no International Journal of Anthropology and Ethnology cunhou o termo "elusive closure" (fechamento ilusório) para capturar a natureza única e não resolvida do luto que a distância pode impor aos migrantes . Trata-se de um luto em aberto, que não encontra os rituais de fechamento culturalmente esperados.
O estudo, realizado com imigrantes brasileiros na Alemanha, identificou que esses enlutados enfrentam uma complexa tapeçaria de:
Isolamento
Viver o luto longe da rede de apoio familiar e comunitária.
Tristeza
Intensificada pela impossibilidade de compartilhar o momento com os seus.
Culpa
Por não estar presente, por não ter se despedido, por seguir a vida.
Desconexão
Dos marcos culturais e rituais que dariam sentido à perda.
Além disso, a impossibilidade de comparecer ao funeral de um ente querido agrava significativamente a experiência do luto transnacional . O funeral não é apenas uma cerimônia – é um rito de passagem que ajuda a elaborar a perda, a dar sentido ao que aconteceu e a receber o suporte da comunidade.
Como nos lembra a antropologia, o luto está profundamente enraizado na cultura. Não existe uma forma universal de vivenciar a perda; os significados e rituais atribuídos à morte variam enormemente entre sociedades, religiões e até mesmo entre famílias.
Uma das participantes da pesquisa sobre imigrantes brasileiros na Alemanha expressou essa diferença de forma contundente:
"No Brasil, a gente vive diferente, e a gente morre diferente." — Natalia, participante da pesquisa
O choque cultural diante dos rituais de morte no país de acolhimento pode intensificar o sentimento de deslocamento e estranhamento. A forma como se deve sofrer, por quanto tempo, com quais expressões – tudo isso é culturalmente informado. Quando o imigrante se vê distante de seus referenciais culturais de luto, ele perde também as estruturas que poderiam ajudá-lo a atravessar a dor.
O DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) define o luto prolongado como um transtorno, estabelecendo critérios temporais e sintomáticos. No entanto, diversos pesquisadores questionam essa delimitação, argumentando que as noções de "tempo apropriado" para o luto diferem não apenas entre culturas, mas também entre famílias . O que é considerado "normal" em um contexto pode ser visto como "patológico" em outro.
Para além do luto pela morte de entes queridos, o migrante vive outras perdas que se acumulam silenciosamente. Pesquisas com imigrantes brasileiros apontam para quatro eixos narrativos centrais nesse processo:
Códigos sociais
A dificuldade de compreender e ser compreendido nas regras não escritas da nova cultura
Língua
A perda da fluência e da espontaneidade na comunicação, o esforço constante de se fazer entender
Processos de luto
A elaboração de todas as perdas acumuladas – da terra, dos vínculos, da identidade
Saúde mental
O impacto dessas perdas no bem-estar psicológico, com destaque para ansiedade e depressão
Essas perdas são chamadas de "silenciosas" porque, muitas vezes, não são reconhecidas socialmente. O imigrante é frequentemente visto como "bem-sucedido", "realizado", e não há espaço para nomear o que ficou para trás.
Na Gestalt-Terapia, compreendemos que o self emerge na relação com o mundo – é uma função de contato, que se configura a cada nova situação. Jean-Marie Robine, um dos mais importantes teóricos contemporâneos da abordagem, nos ensina que o self é temporalidade, e que a experiência saudável é aquela em que podemos nos desdobrar livremente, em contato com o que emerge a cada momento.
Para o imigrante, o self se desdobra entre dois mundos. Há uma identidade cindida entre quem se era no país de origem e quem se está se tornando no país de acolhimento. Esse processo pode levar ao que pesquisadores chamam de "identidade de não pertencimento" – a sensação de não pertencer inteiramente a lugar nenhum.
Teresinha Mello da Silveira nos lembra que "pertencer é poder ser visto e acolhido em sua diferença". No contexto migratório, a diferença é constante – mas o acolhimento, nem sempre.
Quando a pessoa migra, ela carrega consigo não apenas sua história, mas também suas Gestalten incompletas – situações inacabadas, relações não resolvidas, despedidas não feitas. A distância física torna mais difícil o fechamento dessas Gestalten, que seguem ocupando energia psíquica e alimentando o sofrimento.
A pesquisa sobre imigrantes brasileiros revela que muitos desenvolvem um sentimento de choque cultural com sua própria cultura de origem ao considerar o retorno, experimentando um deslocamento também em relação aos seus compatriotas. É a experiência de estar "entre dois mundos, sem pertencer inteiramente a nenhum" – tema que já exploramos em outro artigo.
Karina Okajima Fukumitsu, importante gestalt-terapeuta brasileira especialista em luto, nos ensina que "o luto não é um estado a ser superado, mas um processo a ser vivido. Não há como apressar a dor; ela tem seu próprio tempo, e é no acolhimento desse tempo que a cura se torna possível". Tive a oportunidade de conhecer Karina pessoalmente em dois momentos marcantes da minha trajetória: primeiro, no XII Encontro Nacional de Gestalt-terapia e X Congresso Brasileiro da Abordagem Gestáltica, em Águas de São Pedro; e, posteriormente, em um workshop sobre perdas e suicídio - em que fui monitora - em Joinville. Essas experiências – o contato com sua obra e a vivência ao seu lado – marcaram profundamente minha compreensão sobre o acolhimento ao enlutado, especialmente quando a perda acontece atravessada pela distância geográfica e cultural.
No caso do luto migratório, esse acolhimento precisa considerar as especificidades da distância. Alguns caminhos possíveis:
Reconhecer a legitimidade da dor
O luto migratório não é "menos importante" por acontecer à distância. Ele é real e merece espaço.
Criar rituais próprios de despedida
Na impossibilidade de participar dos rituais tradicionais, o imigrante pode criar seus próprios ritos – acender uma vela, escrever uma carta, fazer uma cerimônia íntima que conecte à sua cultura e à sua fé.
Manter conexões significativas
A tecnologia permite algum nível de contato, mas é importante cultivar também relações no país de acolhimento que possam oferecer suporte.
Elaborar as múltiplas perdas
O luto migratório não se resume à morte. Inclui também o luto pela língua, pelos códigos sociais, pela identidade anterior. Todas essas perdas pedem escuta.
Buscar apoio profissional
Um terapeuta que compreenda as nuances do processo migratório pode oferecer um espaço seguro para que o imigrante possa nomear e elaborar suas dores.
Pesquisas indicam a necessidade de que profissionais de saúde reconheçam os desafios únicos impostos pela distância no processo de luto dos imigrantes, clamando por mais investigações sobre essa experiência multifacetada na diáspora.
Ao longo da minha trajetória como psicóloga, tenho acompanhado brasileiros que vivem em diferentes partes do mundo. Suas histórias revelam a complexidade do luto migratório:
A cliente que não pôde se despedir da mãe porque o visto não chegou a tempo, e carrega até hoje a culpa por não ter estado presente.
O cliente que, ao retornar ao Brasil, sentiu-se estrangeiro em sua própria terra, estranhando os códigos e rituais que um dia foram seus.
A cliente que desenvolveu ansiedade severa diante da possibilidade de perder alguém e não conseguir viajar.
Essas experiências me ensinaram que o luto migratório não é apenas sobre a perda de quem se foi – é também sobre a perda de si mesmo, da própria história, do lugar que se ocupava no mundo.
Se você se identifica com algumas das situações abaixo, talvez seu luto migratório esteja pedindo atenção:
Você perdeu alguém querido e não pôde estar presente no funeral ou nos rituais de despedida
Sente culpa por não ter conseguido se despedir ou por estar seguindo a vida enquanto seus familiares sofrem
Percebe que as perdas se acumulam – da língua, dos códigos sociais, da identidade – e você não tem espaço para nomeá-las
Sente-se deslocado tanto no país onde mora quanto no Brasil, sem pertencer inteiramente a nenhum lugar
A ansiedade ou a tristeza têm sido constantes, e você não consegue identificar exatamente o motivo
Evita pensar no assunto, mas ele retorna em pesadelos, pensamentos intrusivos ou sintomas no corpo
Esses sinais não são "frescura" nem "falta de adaptação". São figuras emergentes que pedem atenção – uma linguagem do organismo dizendo que algo precisa ser acolhido.
O luto migratório é uma experiência profunda e legítima. Não se trata de "superar" ou "esquecer", mas de integrar a perda à própria história de forma que ela possa ser vivida sem paralisar a vida. Como nos lembra a pesquisa sobre imigrantes brasileiros, o luto é um processo e uma jornada – ninguém atravessa isso da noite para o dia.
Na terapia, construímos juntos um espaço seguro para você nomear suas perdas, acolher suas dores e encontrar novos sentidos para sua história – mesmo vivendo entre dois mundos. Não se trata de apressar o processo, mas de oferecer presença e escuta para que ele possa acontecer no seu tempo.
Atendo adultos online, no Brasil e no exterior, com escuta acolhedora e respeito à sua história. Se você sente que esse olhar faz sentido para o seu momento, estou aqui para caminhar com você nessa travessia.
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DE FREITAS SAMPAIO, Julia; MARTINS, Alexandre Nogueira. Elusive closure: a case study of bereaved Brazilian immigrants in Germany. International Journal of Anthropology and Ethnology, v. 9, n. 1, p. 1-19, 2025.
LUZ, Marcos André Silva da. The migratory process of brazilians: between cultural alterity and mental health. 2022. Dissertação (Mestrado) – Universidade de Brasília (UnB).
FUKUMITSU, Karina Okajima. Uma visão fenomenológica do luto: Um estudo sobre as perdas no desenvolvimento humano. São Paulo: Editora Livro Pleno, 2004.
PERLS, F.; HEFFERLINE, R.; GOODMAN, P. Gestalt-Terapia. São Paulo: Summus, 1997.
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SILVEIRA, Teresinha Mello da. Entrevista. IGT na Rede, v. 2, n. 2, 2005.
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