"Na verdade, a questão é ser um corpo... quando você é um corpo, quando você se experimenta totalmente como um corpo, então você é alguém. E quando você não tem isso, você facilmente se experimenta como ninguém."
— Laura Perls
Você já se sentiu como uma planta com raízes a milhares de quilômetros de distância do caule e das folhas? Essa metáfora, criada pelo poeta argentino Juan Gelman, descreve com precisão a experiência de quem vive longe de sua terra.
No mundo, há cerca de 281 milhões de migrantes internacionais . Uns partiram por escolha, em busca de novas oportunidades. Outros foram forçados a deixar tudo para trás, fugindo da guerra, da perseguição política ou da fome. Em 2019, mais de 79,5 milhões de pessoas estavam em deslocamento forçado .
Seja qual for o motivo, a travessia e a adaptação a um novo país impõem desafios profundos à saúde mental. Para muitos, esses desafios podem evoluir para a chamada Síndrome de Ulisses, um quadro de estresse intenso que, embora não seja uma doença, pode ser confundido com depressão e ansiedade, levando a sofrimento e tratamentos inadequados.
Este texto é um convite para você compreender melhor esses fenômenos e, principalmente, para acolher os sinais que seu corpo e sua mente podem estar emitindo.
A Síndrome de Ulisses, também conhecida como Síndrome do Imigrante com Estresse Crônico e Múltiplo, foi descrita pelo psiquiatra espanhol Joseba Achotegui no início dos anos 2000 . Ela leva esse nome em referência ao herói grego Ulisses (Odisseu), que vagou por anos em condições extremas para tentar retornar para casa .
É fundamental entender que a síndrome NÃO é uma patologia ou um transtorno mental. Trata-se de uma reação de estresse muito intensa vivida por pessoas sãs que são submetidas a situações-limite no processo migratório . É uma resposta humana a circunstâncias desumanas.
⚠️ Fatores desencadeantes
A síndrome ocorre quando o migrante enfrenta, de forma somada e prolongada, o que Achotegui chama de "lutos migratórios" agravados por condições extremas. Não é apenas a saudade de casa; é um combo de perdas e dificuldades . Quando o imigrante perde seus referenciais de língua, terra e costumes, ele experimenta uma ruptura na experiência de "ser alguém", um vazio que a psicologia intercultural e a Síndrome de Ulisses buscam nomear e acolher
Os lutos normais da migração incluem:
Perda da família e dos entes queridos
Perda do status social e profissional
Perda da terra e da paisagem familiar
Perda do idioma (uma barreira enorme para trâmites e relações)
Perda dos códigos culturais (costumes, jeito de se relacionar)
Perda do grupo de pertencimento
A Síndrome de Ulisses surge quando, a esses lutos, somam-se fatores de estresse extremo, como:
Solidão forçada e isolamento (falta de rede de apoio)
Luta extrema pela sobrevivência (fome, moradia precária, trabalho informal e exaustivo)
Medo constante e sensação de desamparo (falta de documentos, risco de deportação, xenofobia)
Falta de perspectivas (não conseguir crescer ou sequer se estabilizar) .
Pesquisas com imigrantes em países como o Canadá revelam a dimensão do problema e os fatores de risco associados:
🌍 29% dos imigrantes relatam problemas psicológicos (Canadá)
📊 16% dos imigrantes relatam alto nível de estresse (Canadá)
🛡️ Refugiados e trabalhadores qualificados são mais propensos a relatar problemas e estresse do que imigrantes por reunificação familiar
🗣️ Baixa proficiência no idioma local está associada a mais dias estressantes
🤝 Ausência de amigos no país de acolhida aumenta a probabilidade de alto nível de estresse
👩🦰 Mulheres imigrantes são mais propensas a relatar problemas emocionais como tristeza, depressão e solidão
🌎 Imigrantes da América do Sul e Central têm maior propensão a relatar problemas psicológicos
Esses dados mostram como a falta de suporte social, as barreiras linguísticas e as condições de entrada no país são determinantes para a saúde mental de quem recomeça a vida longe de casa.
😴 Insônia e dificuldade para relaxar
Mente acelerada, preocupações noturnas, cansaço ao acordar
🤕 Cefaleias e dores musculares
Tensão acumulada no corpo, dores sem causa orgânica aparente
😢 Tristeza e choro frequente
Sentimento de luto constante pela vida que ficou para trás
😤 Nervosismo e irritabilidade
Dificuldade de lidar com pequenas frustrações do dia a dia
😰 Ansiedade e angústia
Sensação permanente de que algo terrível vai acontecer, medo do futuro
🥱 Fadiga e falta de memória
Dificuldade de concentração, confusão mental, exaustão emocional
🏠 Isolamento e desânimo
Dificuldade de criar laços, perda de prazer nas atividades
🔍 Na Síndrome de Ulisses
Sintomas são resposta direta a estressores externos e objetivos: falta de documentos, desemprego, solidão
Quando esses obstáculos são superados, os sintomas tendem a desaparecer
⚠️ Na Depressão e Transtornos de Ansiedade
Há um componente clínico mais complexo
Os sintomas podem persistir mesmo depois que a situação externa melhora
Indicam necessidade de tratamento psicológico ou psiquiátrico específico
Um diagnóstico equivocado pode levar a tratamentos inadequados, como o uso desnecessário de medicação, que não resolve a raiz do problema .
A boa notícia é que há muito o que fazer, tanto por quem vive essa situação quanto por quem deseja apoiar.
Para quem está passando por isso:
Crie e cultive sua rede de apoio: O primeiro passo é quebrar o isolamento. Procure grupos de migrantes da sua nacionalidade, associações culturais, igrejas ou centros de apoio. Compartilhar a experiência com quem vive o mesmo é fundamental para não se sentir sozinho .
Busque equilíbrio entre as raízes e as folhas: Manter contato com sua cultura de origem é vital para nutrir sua identidade. Mas também é preciso se abrir para a nova cultura, aprender o idioma e entender os códigos locais. O segredo é encontrar um equilíbrio, sem fazer "cortes radicais" .
Cuide do corpo: Atividade física regular, alimentação balanceada e momentos de lazer são essenciais para reduzir o estresse e fortalecer sua saúde como um todo .
Aprenda o idioma local: Isso abre portas para o trabalho, para amizades e para a compreensão da nova cultura, reduzindo a sensação de estranhamento .
🫂 Acolhimento para compartilhar o que você está vivendo, sem medo de ser julgado
🧠 Autoconhecimento para entender melhor suas emoções, pensamentos e reações
🌱 Fortalecimento emocional para lidar com os desafios do dia a dia
🧭 Orientação para tomar decisões importantes e encontrar novos sentidos
Como psicóloga que atende brasileiros no exterior, sei que as dores de quem migra são reais e profundas. Não se trata de "falta de adaptação" ou "fraqueza", mas de uma resposta humana e natural a situações de estresse extremo.
A Síndrome de Ulisses nos lembra que, por trás de cada estatística de imigração, há uma história, uma família, uma trajetória de luta e recomeço. Se você se identificou com algum desses sinais, saiba que não está sozinho. Buscar ajuda é um ato de coragem e de cuidado consigo mesmo.
Atendo adultos online, esteja você no Brasil ou em qualquer lugar do mundo. Meu espaço é para acolher sua história com respeito e construir, juntos, caminhos para o bem-estar.
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PERLS, Laura. Living at the boundary. Highland, NY: The Gestalt Journal Press, 1992. Apud LINS, Rafael; ALVIM, Mônica Botelho. A mundaneidade do corpo: (re)pensar a cultura individualista e suas implicações para a gestalt-terapia. Revista da Abordagem Gestáltica, v. 26, n. 3, p. 280-289, dez. 2020