"Pertencer é poder ser visto e acolhido em sua diferença. E os animais nos ensinam, todos os dias, a beleza desse pertencimento."
— Teresinha Mello da Silveira
Você já olhou para seu cachorro ou gato e sentiu que ele é, simplesmente, família? Que a presença dele transforma a casa em lar, o dia cinzento em afeto, a solidão em companhia? Se sim, você já experimenta, na prática, o que hoje se chama de família multiespécie.
A relação entre humanos e animais de estimação tem se transformado profundamente nas últimas décadas. O que antes era visto como uma relação utilitária (cães para guarda, gatos para controle de pragas) deu lugar a um vínculo afetivo profundo, onde os animais ocupam o lugar de membros da família . Pesquisas na área da antrozoologia – ciência que estuda a interação entre humanos e animais – mostram que esse fenômeno é global e crescente .
Na Gestalt-Terapia, compreendemos que todo vínculo significativo acontece na fronteira de contato – esse lugar onde eu e o outro nos encontramos, nos diferenciamos e nos conectamos. E os animais, com sua presença tão inteira e autêntica, são mestres nessa arte.
Este artigo é uma celebração desse vínculo tão especial. E, sim, vou compartilhar um pouco da minha própria experiência: tenho três cachorrinhas adotadas que são minha família, e sou vegetariana estrita – uma escolha que nasceu justamente desse respeito profundo por todas as formas de vida. Porque, para mim, a família multiespécie não é só um conceito – é uma forma de viver.
O conceito de família multiespécie reconhece que os animais de estimação não são meros "bens" ou "objetos", mas membros integrantes da família, com quem se estabelecem laços afetivos profundos . É quando o cachorro tem lugar no sofá, o gato participa das conversas, e as decisões sobre a vida – como mudar de casa, viajar ou até escolher um plano de saúde – levam em conta o bem-estar deles.
Estudos acadêmicos têm se dedicado cada vez mais a compreender esse fenômeno. Pesquisas mostram que:
Muitos casais optam por não ter filhos ou adiam a maternidade/paternidade, cuidando de seus pets como membros da família
Animais de estimação aumentam o comportamento pró-social em grupos de trabalho e fortalecem vínculos comunitários
A relação com os animais atua como fator de proteção emocional em momentos de luto, solidão e transições de vida
A psicóloga Juli Batista observa que "existe o lado em que o animal supre pro lado do bem, quando uma pessoa vive um luto ou tem uma carência e consegue sentir esse carinho, essa proteção que ela oferece ao bichinho, mas também se sente protegida".
Na perspectiva da Gestalt-Terapia, o vínculo saudável acontece quando podemos estar em contato genuíno – presença autêntica, sem fusão, sem rigidez. E os animais são, nesse sentido, verdadeiros mestres.
Presença integral
Animais não dividem a atenção. Quando estão com você, estão inteiros. Não checam o celular, não pensam na lista de tarefas, não se preocupam com o amanhã. Eles estão ali, no aqui-agora, disponíveis para o encontro. Isso é awareness em estado puro – e nos ensina sobre a qualidade de presença que podemos cultivar em nossas relações.
Fritz Perls nos lembrava que "a awareness por si só é curativa" . Os animais já sabem disso intuitivamente.
Aceitação sem julgamento
Quantas vezes você chegou em casa depois de um dia difícil e foi recebido com festa, independentemente do seu humor, da sua aparência, dos seus erros? Os animais não nos julgam. Eles nos acolhem como somos. Essa aceitação incondicional é um dos pilares do vínculo saudável – e algo que podemos aprender a oferecer também a nós mesmos e aos outros.
Comunicação para além das palavras
A comunicação com os animais se dá no corpo, no olhar, no toque, na presença. Não depende de palavras elaboradas ou explicações complexas. Isso nos lembra que o contato genuíno – conceito central na Gestalt – acontece muito além da linguagem verbal. É na fronteira de contato que nos encontramos, e os animais são especialistas nisso .
Lealdade e compromisso
Quem tem um animal sabe: a relação exige cuidado diário, atenção, responsabilidade. Eles dependem de nós, e isso nos convoca a um compromisso que vai além do afeto – é a ética do cuidado. Como alerta a veterinária Laís Gastaldon, "adotar não é apenas acolher um pet porque ele é bonito ou carinhoso, mas assumir um compromisso que envolve tempo, paciência, disposição emocional e recursos financeiros".
No ciclo de contato da Gestalt-Terapia, podemos compreender como o vínculo com os animais se desenvolve de forma saudável:
Na Gestalt-Terapia, o ciclo de contato descreve como nos relacionamos com o mundo e satisfazemos nossas necessidades. Na relação com os animais, cada fase ganha uma expressão única:
🌀 Sensação
Percebemos a presença do animal, o calor do corpo, o som da respiração, o olhar que pede carinho.
👁️ Awareness
Tomamos consciência da necessidade de contato – a nossa e a dele – e nos abrimos para o encontro.
⚡ Mobilização
A energia se organiza para agir: estender a mão, fazer um carinho, preparar a comida, sair para passear.
🏃 Ação
O contato acontece: o afago, a brincadeira, o olho no olho, a presença compartilhada.
🤝 Contato
Vivemos o encontro de forma plena – aquele momento em que não há separação, só conexão.
🧘 Retirada
A necessidade se satisfaz, o animal se deita, você volta ao que fazia – mas o vínculo permanece.
Ela nos ajuda a perceber que a relação com os animais não é estática, mas um processo vivo, que se renova a cada interação. Quando o ciclo flui naturalmente, o vínculo se fortalece. Quando há interrupções – falta de tempo, rigidez na rotina, dificuldade de se entregar ao contato – a relação pode se desgastar, e ambos sofrem.
Reconhecer o animal como membro da família não é apenas um gesto afetivo – é também um compromisso ético. E isso implica responsabilidades concretas:
Cuidados com a saúde: vacinação, alimentação adequada, acompanhamento veterinário regular. A veterinária Laís Gastaldon observa que "quando os animais envelhecem, novas demandas surgem: doenças crônicas, limitações físicas e necessidade de maior acompanhamento veterinário. Infelizmente, é nesse estágio que cresce o índice de abandono" .
Adaptação da rotina: horários para passeio, alimentação, atenção. Isso exige organização e, muitas vezes, renúncias.
Preparo emocional para o luto: a perda de um animal é uma das dores mais profundas para quem vive essa relação. Estudos mostram que o luto por animais de companhia pode ser tão intenso quanto o luto por humanos .
Equilíbrio entre cuidado e codependência: a psicóloga Juli Batista alerta para o risco de "quase uma codependência emocional, porque aquele animal vira tudo pra ela”.
Na relação com os animais, também aprendemos sobre nós. A forma como cuidamos deles revela nossa capacidade de responsabilidade, paciência e afeto. A maneira como nos entregamos ao vínculo mostra nossa disponibilidade para o amor. E a dor que sentimos quando eles partem revela a profundidade do que construímos juntos.
Todd Burley, gestalt-terapeuta que escreveu sobre o "curador ferido", nos lembra que "os curadores também precisam de cura" . Cuidar de um animal pode ser, para muitos, uma forma de se cuidar – de encontrar sentido, de sair da solidão, de exercitar o afeto. Mas também exige que estejamos atentos aos nossos próprios limites e necessidades.
A estudante Natalia Rodriguez, mãe de um gato, resume essa experiência com simplicidade: "A rotina muda, mas muda pra melhor. O carinho do Ozzy é genuíno, e sinto que não estou mais sozinha. É uma presença leve, que ocupa exatamente o espaço que eu consigo oferecer".
Se você tem um animal em sua vida, já sabe: eles nos ensinam sobre presença, sobre amor sem condições, sobre a beleza do encontro. Mas também nos convocam à responsabilidade – e isso inclui cuidar de nós mesmos para poder cuidar bem deles.
Na terapia, construímos um espaço para você explorar seus vínculos – com os animais, com as pessoas, consigo mesmo. Para acolher as dores e celebrar as alegrias que essas relações trazem. Para aprender, com eles, a estar mais presente no aqui-agora.
E, no meu caso, essa compreensão se estende à minha própria vida: tenho três cachorrinhas adotadas que são minha família, e a escolha pelo vegetarianismo estrito nasceu justamente desse respeito profundo por todas as formas de vida. Porque acredito que cuidar dos animais é também cuidar do mundo que queremos construir.
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VIEIRA, Tereza Rodrigues; CARDIN, Valéria Silva Galdino. Antrozoologia e Direito: o afeto como fundamento da família multiespécie. Revista de Biodireito e Direito dos Animais, v. 3, n. 1, p. 127-141, 2017.
AGUIAR, Melanie de Souza de; ALVES, Cássia Ferrazza. A família multiespécie: um estudo sobre casais sem filhos e tutores de pets. Pensando famílias, v. 25, n. 2, p. 19-30, 2021.
SOUZA, Brendha. Como animais transformam vida de seus tutores. Primeira Pauta, 6 dez. 2025.
PERLS, F.; HEFFERLINE, R.; GOODMAN, P. Gestalt-Terapia. São Paulo: Summus, 1997.
ROBINE, Jean-Marie. Contacto & relación en psicoterapia: Reflexiones sobre terapia Gestalt. Santiago de Chile: Cuatro Vientos, 2013.
BURLEY, Todd. The Wounded Healer. Thrive, 2017.
SILVEIRA, Teresinha Mello da. Entrevista. IGT na Rede, v. 2, n. 2, 2005.