"A ansiedade é uma emoção que não nos deixa respirar."
— Fritz Perls
Você já sentiu o coração disparar sem motivo aparente? Aquela tensão nos ombros que não passa, mesmo depois de um dia "normal"? Ou talvez uma dificuldade de respirar fundo, como se o ar não chegasse completo?
Muitas vezes, a ansiedade se manifesta primeiro no corpo – e só depois a mente percebe. Mas, na correria do dia a dia, aprendemos a ignorar esses sinais. Eles vão se acumulando, virando "normais", até que o corpo grita de um jeito que não dá mais para não ouvir.
O Brasil é o país com a maior prevalência de transtornos de ansiedade do mundo: cerca de 9,3% da população brasileira tem diagnóstico de algum transtorno ansioso. E mesmo quem não preenche critérios diagnósticos convive diariamente com os efeitos da ansiedade no corpo: a mente acelerada, a tensão muscular, a dificuldade de desacelerar.
Na Gestalt-Terapia, compreendemos que corpo e mente não estão separados. A ansiedade não é apenas um fenômeno mental – ela é uma experiência do organismo como um todo, que se expressa em sensações, tensões, movimentos. Este artigo é um convite para você aprender a escutar o que seu corpo está dizendo – antes que ele precise gritar.
Antes de falarmos dos sinais, é importante compreender o que é a ansiedade. De acordo com o DSM-5, o grupo de transtornos de ansiedade compartilham características fundamentais como a ansiedade e medo excessivos, bem como alterações comportamentais relacionadas.
Mas é fundamental diferenciar ansiedade de medo:
🔹 Direcionamento
Medo: Ameaça iminente, real ou percebida
Ansiedade: Antecipação de ameaça futura
🔹 Função
Medo: Preparo fisiológico imediato para ação (luta ou fuga)
Ansiedade: Preocupação, tensão e vigilância
🔹 Temporalidade
Medo: Presente
Ansiedade: Futuro
O medo tem características autonômicas: ativa o sistema nervoso simpático, preparando o corpo para agir. A ansiedade, por sua vez, se caracteriza por uma preocupação, tensão e vigilância em relação a um perigo que poderá, ou não, ocorrer num futuro.
Ênio Brito Pinto, importante autor gestáltico brasileiro, nos lembra que "a ansiedade é central e ontológica, o medo é periférico e circunstancial" . Sendo ontológica, a ansiedade faz parte da condição humana – uma vida sem ansiedade é praticamente impossível. Ela é fonte de estímulo e motivação, mantém o alerta, preza pela sobrevivência através da precaução de possíveis ameaças à integridade física e psicológica.
A ansiedade dita normal ou adaptativa é aquela que vivemos a todo momento ao fazer escolhas na vida. Já a ansiedade patológica é desproporcional ao vivido, excessiva e persistente, causando prejuízo significativo nas atividades diárias – profissional, social, familiar.
Quando uma pessoa sente ansiedade, muitas vezes ela também apresenta sintomas físicos. Segundo o Manual MSD, esses sintomas incluem falta de ar, tontura, sudorese, batimentos cardíacos acelerados e/ou tremor . A seguir, listamos os principais sinais que o corpo dá quando a ansiedade está presente – e que tantas vezes ignoramos.
💓 Coração acelerado ou palpitações
Sensação de que o coração está batendo muito rápido, mesmo em repouso
Pode vir acompanhada de aperto no peito ou sensação de "frio na barriga"
É a resposta do corpo ao estado de alerta constante
🌬️ Falta de ar ou respiração superficial
Dificuldade de "pegar ar" profundamente
Sensação de que o ar não chega completo aos pulmões
Respiração curta e acelerada, mesmo sem esforço físico
💦 Sudorese excessiva
Mãos suadas, mesmo em situações sem calor
Suor nas axilas, testa ou costas sem causa aparente
Resposta do sistema nervoso simpático ao estado de alerta
😬 Tensão muscular
Ombros encurvados, mandíbula travada, punhos cerrados
Dores nas costas, pescoço ou cabeça (cefaleia tensional)
O corpo "se prepara para a luta", mesmo quando não há perigo real
🦵 Agitação nos braços e pernas
Necessidade constante de se mover, balançar as pernas, bater os dedos
Sensação de inquietação, como se o corpo precisasse "gastar energia"
Pode causar dor e tensão muscular com o tempo
😴 Distúrbios do sono
Dificuldade para adormecer: a mente não desliga
Acordar várias vezes durante a noite
Sono leve, não reparador, sensação de cansaço ao acordar
🥱 Cansaço excessivo
Mesmo após dormir, a sensação é de exaustão
Falta de energia para começar o dia
O estado constante de alerta consome a energia do corpo
🤢 Sintomas gastrointestinais
Enjoo, desconforto na barriga, "borboletas no estômago"
Diarreia ou constipação sem causa orgânica aparente
O sistema digestivo é sensível ao estresse emocional
😵 Tontura ou sensação de desequilíbrio
Sensação de que a cabeça está "oca" ou leve
Dificuldade de manter o equilíbrio
Pode estar associada à respiração superficial
🧠 Dificuldade de concentração
A mente "vaga", não consegue se fixar em tarefas
Esquecimentos frequentes, perda de foco
A ansiedade ocupa espaço cognitivo que deveria estar disponível para outras funções
Na Gestalt-Terapia, compreendemos a ansiedade não como um problema a ser eliminado, mas como um fenômeno que emerge no campo organismo/ambiente. É uma excitação que foi interrompida em seu fluxo natural.
Ana Carolina Schmidt, em seu artigo "O tratamento da (pessoa com) ansiedade à luz da Gestalt-terapia", propõe que o trabalho terapêutico não deve focar na ansiedade em si, mas na pessoa que vive a ansiedade. Para ela, a ansiedade pode ser compreendida como um sinal de que ajustamentos criativos mais funcionais precisam ser desenvolvidos, e é através da promoção de awareness que a pessoa pode encontrar formas mais saudáveis de lidar não só com a ansiedade, mas com a vida como um todo.
Ansiedade como excitação bloqueada
Um dos conceitos mais fundamentais para entender a ansiedade na Gestalt é a relação entre ansiedade e excitação. Perls, Hefferline e Goodman definem a ansiedade como o resultado de uma "excitação bloqueada" .
A excitação é um estado de ativação, tanto psíquica quanto física, que acompanha a experiência humana. Ela se desenvolve ao longo do ciclo de contato – o processo pelo qual nos relacionamos com o mundo e satisfazemos nossas necessidades. Quando o ciclo flui livremente, a excitação aumenta gradualmente até culminar no contato pleno e depois se dissipar naturalmente.
No entanto, se durante o ciclo a excitação sofre interrupções, sendo bloqueada, inibida ou desviada, ela pode emergir sob a forma de ansiedade. Nas palavras de Priscila Lima do Nascimento e Fábio Nogueira Pereira, em seu estudo sobre ansiedade generalizada na perspectiva gestáltica, apontam que a ansiedade está relacionada à presença de Gestalten abertas e à falta de ajustamentos criativos eficazes. Quando a pessoa não consegue fechar ciclos ou completar situações inacabadas, a energia fica retida, manifestando-se como ansiedade – um chamado para que algo seja olhado, acolhido e, finalmente, integrado.
O sintoma como mensageiro
Na visão gestáltica, o sintoma não é um inimigo a ser combatido, mas um mensageiro que traz informações importantes sobre o que está desequilibrado no campo organismo/ambiente. Os sinais físicos da ansiedade nos dizem que algo no ciclo da experiência está sendo interrompido – que há uma gestalt incompleta pedindo atenção.
Como aponta Ana Carolina Schmidt, "a Gestalt-terapia é um possível caminho para o tratamento não da ansiedade, mas da pessoa com ansiedade, principalmente através da promoção de awareness e da busca de ajustamentos mais criativos, funcionais e saudáveis para lidar não só com a ansiedade, mas com a vida".
Em cada fase do ciclo de contato, a excitação pode ser interrompida de diferentes maneiras, dando origem a manifestações específicas da ansiedade no corpo:
🌀 Sensação
Interrupção: A pessoa não percebe os sinais sutis do corpo
Manifestação no corpo: Tensões crônicas, dores que "aparecem do nada"
👁️ Awareness
Interrupção: Dificuldade de nomear o que sente
Manifestação no corpo: Sensações difusas, mal-estar sem causa aparente
⚡ Mobilização
Interrupção: Energia acumulada não encontra vazão
Manifestação no corpo: Agitação, pernas inquietas, taquicardia
🏃 Ação
Interrupção: Impulsos são contidos, não expressos
Manifestação no corpo: Tensão muscular, dores de cabeça, bruxismo
🤝 Contato
Interrupção: Medo de se entregar à experiência
Manifestação no corpo: Sudorese, tremor, sensação de desmaio
🧘 Retirada
Interrupção: Dificuldade de se desligar do mundo
Manifestação no corpo: Insônia, cansaço ao acordar, sono não reparador
Nenhum desses padrões é "errado" ou "patológico" em si. Eles se tornam problemáticos quando deixamos de ter escolha – quando a rigidez nos impede de experimentar outras formas de estar no mundo.
O trabalho com a ansiedade na Gestalt-Terapia não se concentra em eliminar os sintomas, mas em ampliar a awareness sobre eles. A pessoa é convidada a:
Escutar o corpo
Perceber onde a tensão se localiza: ombros? mandíbula? estômago?
Observar a respiração: ela é curta? superficial? acelerada?
Notar os movimentos involuntários: tremores, agitação, inquietação
Nomear a experiência
"O que estou sentindo agora, neste exato momento?"
"Que nome essa sensação no meu corpo teria?"
"O que ela está tentando me dizer?"
Explorar o que interrompe o fluxo
"O que eu estava fazendo quando a ansiedade chegou?"
"O que eu precisava expressar e não expressei?"
"Que necessidade minha ficou sem resposta?"
Experimentar novas possibilidades
Permitir que a energia retida encontre vazão: movimento, respiração, expressão
Sustentar o desconforto sem tentar eliminá-lo imediatamente
Descobrir, aos poucos, formas mais fluidas de estar no mundo
Como nos lembra Schmidt, a Gestalt-terapia promove "a busca de ajustamentos mais criativos, funcionais e saudáveis para lidar não só com a ansiedade, mas com a vida".
O corpo não mente. Ele fala – em tensões, em dores, em batidas aceleradas, em noites mal dormidas. Aprender a escutá-lo é uma das habilidades mais importantes que podemos cultivar.
Na terapia, construímos juntos um espaço seguro para você explorar o que seu corpo está dizendo. Não se trata de "controlar" a ansiedade, mas de compreender sua linguagem – e, a partir daí, encontrar formas mais saudáveis de viver.
Atendo adultos online, no Brasil e no exterior, com escuta acolhedora e respeito à sua história. Se você sente que seu corpo tem falado e você não tem conseguido ouvir, estou aqui para caminhar com você.
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SCHMIDT, Ana Carolina. O tratamento da (pessoa com) ansiedade à luz da Gestalt-terapia. IGT na Rede, v. 20, n. 39, 2023.
BARNHILL, John W. Considerações gerais sobre transtornos de ansiedade. Manual MSD, ago. 2023.
PINTO, Ênio Brito. Ansiedade e seus transtornos na visão de um Gestalt-terapeuta. In: FRAZÃO, L. M.; FUKUMITSU, K. O. (org.). Quadros Clínicos disfuncionais e Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 2017.
PINTO, Ênio Brito. Dialogar com a ansiedade: uma vereda para o autocuidado. São Paulo: Summus, 2021.
PERLS, F.; HEFFERLINE, R.; GOODMAN, P. Gestalt-Terapia. São Paulo: Summus, 1997.
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. 5ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2023.